setembro 28, 2003

Carta do Prof. Ademar ao Ministro da Educação

Em resposta às declarações do Ministro da Educação no Parlamento o Prof. Ademar (actual director da Ponte) enviou uma carta ao Ministro da Educação.
Com a devida vénia ao autor e ao sítio do SPN onde a carta se encontra transcrevo-a:

"CARTA DIRIGIDA AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
Escola Básica Integrada de Aves/S.Tomé de Negrelos - Escola da Ponte


Ofício CI-106/03, de 19.Setembro
ASSUNTO: ESCLARECIMENTO


Exmo Senhor
Ministro da Educação


Ouvi ontem, com toda a atenção, as declarações que proferiu na Assembleia da República sobre a impossibilidade de alargamento do Projecto Fazer a Ponte ao 3º Ciclo, como tinha lido, com a mesma atenção, o depoimento que prestara há dias ao Público (ou que este lhe atribuía), no qual aludia aos “rios de dinheiro” que o Ministério tem andado a gastar com a Escola da Ponte (embora, imediatamente, prevenisse que não estava a agir por questões de “contenção financeira”).
Nas duas ocasiões, V.Excia. foi, como sempre, extremamente hábil, reconduzindo a abordagem do dossier da Ponte aos aspectos que, na sua perspectiva, tornariam menos populares e atendíveis as reivindicações desta Comunidade Educativa.
Mas, como muito bem sabe, a parcialidade da argumentação que utilizou é facilmente desmontável. Permita-me então que lhe recorde as faces do problema que, inteligentemente, omitiu.

Começo pela questão do 3º Ciclo. V.Excia. sabe (até porque lho dissemos directamente na reunião que mantivemos em Julho no seu gabinete) que não exigimos a construção de novas instalações e que os Pais aceitariam a transferência dos nossos alunos do 7º ano para outra escola, desde que eles fossem acompanhados pelos professores desta EBI e pelo Projecto Fazer a Ponte. Com uma opção deste tipo ganhariam todos e ninguém ficaria a perder:

- os alunos poderiam continuar a trabalhar nos moldes em que sempre trabalharam, exponenciando e tirando todo o proveito dos conhecimentos e das competências que foram integrando e desenvolvendo nos ciclos anteriores;
- os pais veriam respeitada e valorizada a opção educativa que os levou a matricular os seus filhos na Escola da Ponte;
- o Ministério da Educação, para além de garantir efectivamente (e sem grandes custos adicionais) a continuidade e a consolidação de um Projecto de qualidade que tanto prestígio já trouxe ao nosso país ( e que, de outra forma, se extinguirá inexoravelmente), poderia rentabilizar, maximizando, os recursos disponíveis localmente, dando um exemplo de boa e equilibrada gestão do parque escolar existente;
- a equipa docente do Projecto veria recompensada a dedicação e o empenho que a Avaliação Externa reconheceu e não sentiria que o trabalho dos últimos dois anos de preparação do alargamento do Projecto ao 3ºCiclo foi completamente inútil, como resultará, se mantidas, das posições que V.Excia. vem defendendo;
- V.Excia., finalmente, poderia honrar o compromisso que, enquanto Ministro da Educação, assumiu perante os portugueses de distinguir a qualidade e premiar o mérito, dando ao país (e não apenas ao país) um exemplo de coerência e de sabedoria política que muito o prestigiariam.

Detenho-me agora na questão dos custos do Projecto.
Não pretendo contraditar os valores contabilísticos propalados pelo Ministério e hoje mesmo. uma vez mais, trazidos a público. O que lhes contraponho é uma relação de benefícios. Sem pretender ser exaustivo, destacaria:
1- O facto de, nesta Escola, os alunos não terem “furos” e estarem sempre utilmente ocupados;
2- O facto de esta Escola aceitar todos os alunos que a procuram, muito especialmente, aqueles que já tinham perdido a esperança de ser acolhidos e integrados no sistema de ensino;
3- O facto de, nesta Escola, se garantir uma derradeira e, tantas vezes, desesperada oportunidade de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal a tantos e tantos alunos que outras escolas rejeitaram e que, se não fosse o Projecto Fazer a Ponte, estariam hoje a engrossar as taxas de abandono escolar e, muito provavelmente, em alguns casos, a militar na delinquência;
4- O facto de esta Escola oferecer às famílias um programa de ocupação educativa dos alunos entre as 8:30 e as 18:30 horas;
5- O facto de esta Escola valorizar tanto a autonomia, o sentido de responsabilidade e a formação cívica dos alunos;
6- O facto de, nesta Escola, não haver professores com horários zero, nem reduções da componente lectiva;
7- O facto de esta Escola, em sintonia com as famílias e em estreita colaboração com as empresas, proporcionar aos adolescentes que, pelos seus handicaps, já muito pouco têm a esperar do sistema de ensino, experiências de pré-profissionalização que, em muitos casos, lhes devolvem a esperança no futuro;
8- O facto de esta Escola constituir um exemplo e um permanente estímulo de inovação aos professores e aos pais que aspiram a uma Educação e um Ensino de qualidade.

Sociólogo de formação, V.Excia. não precisará que enfatizemos a “utilidade social” desta Escola, utilidade, aliás, que a Comissão de Avaliação Externa do Projecto Fazer a Ponte, muito justamente, reconheceu e sublinhou. E não precisará também que lhe expliquemos as razões que nos levam a afirmar tantas vezes que esta Escola, pelas mais-valias que acrescenta à formação dos alunos e pelos benefícios sociais que assegura e induz, é, muito provavelmente, a Escola que fica mais barata ao Estado Português.
Por isso, quando afirma que o Ministério tem gasto “rios de dinheiro” com esta Escola (que, ademais, como deve saber, funciona em instalações precárias e sem um conjunto de recursos que o Ministério costuma proporcionar, normalmente, a outras escolas), V.Excia. está a ser profundamente injusto e, permita que acrescente, muito pouco rigoroso.
Não pretendo com este esclarecimento alimentar qualquer espécie de polémica com V.Excia, mas tão só defender a imagem pública desta Escola, que, por tudo aquilo que tem feito nos últimos 27 anos, não merecia ser tratada da forma como V.Excia. tem vindo a fazê-lo.
A decisão final é sua e, com toda a legitimidade democrática, poderá com um simples despacho acabar com este Projecto. Mas, por favor, não espere que os Pais e os Profissionais desta Comunidade Educativa, que não têm olhado a sacrifícios para lutar por aquilo em que acreditam, aceitem em silêncio declarações que, objectivamente, amesquinham um Projecto, uma Escola e uma Equipa.

Com as mais cordiais saudações


do Presidente da Comissão Instaladora

Ademar Ferreira dos Santos

ESCOLA DA PONTE"


Vejam os outros comentários. Alguns deles são extremamente interessantes (na minha opinião).

Publicado por Ponte em setembro 28, 2003 12:15 AM
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